Ler, encantar e desenvolver



No artigo anterior, “Vamos ler a dois?” nesta mesma rubrica, lembrei algumas ideias de um dos capítulos do meu livro Educar Olhando em Frente: Orientações para uma parentalidade mais consciente (2018). O capítulo intitula-se “Ajudar o cérebro a dar o seu melhor” e, tal como tive a oportunidade de referir, a leitura, entendida como meio de estimulação cerebral, contribui para reforçar a nossa atividade cerebral, melhorando as funções e estruturas que utiliza no seu processamento. Tendo enfatizado que, na infância, se encontram em aberto maiores possibilidades de enriquecimento de capacidades, através da atividade leitora, referi os contributos específicos da leitura para a manutenção de bons níveis de atividade cerebral, enquanto função cognitiva e emocional.


No que diz respeito aos fatores emocionais, destaquei o seu efeito na promoção da capacidade de compreensão dos outros, com implicações positivas nas relações estabelecidas, a melhoria do estado de humor e satisfação pessoal, e a potencial ajuda na higiene do sono, associada, a atividade, à hora de dormir.

Já no que se relaciona com a melhoria das funções cognitivas, contribui para a criação de uma boa reserva cognitiva, uma espécie de reserva que poderá ajudar a diminuir o impacto de possíveis processos de degeneração cerebral; para um bom desempenho intelectual, sobretudo nas componentes ligadas à linguagem; para a estimulação das capacidades de atenção, concentração e memória; para o desenvolvimento da criatividade; para a melhoria da capacidade de processamento rápido das tarefas; e para a melhoria da capacidade percetiva e espacial, bem como para as chamadas funções executivas do cérebro.


No entanto, no que à especificidade de alguns aspetos diz respeito, no referido artigo anterior, centrei-me na abordagem da temática, no âmbito da idade adulta, destacando, essencialmente, o interesse pela leitura a dois, enquanto processo de aproximação afetiva e emocional, com igual interesse intelectual, de partilha de ideias sobre temas lidos em conjunto mas, sobretudo, enquanto possibilidade “terapêutica” para o casal e para a sua relação amorosa.

Centremo-nos, então, agora, na importância de se ler para as crianças e nas interações que, nesse processo, possam contribuir, de forma positiva, para o seu bom desenvolvimento. Tudo pode começar por conversar com elas sobre possíveis leituras, como forma de despertar interesse por enredos e temáticas. Mas também pela exploração dos assuntos de leituras já proporcionadas, facultando o manuseamento de livros adequados à idade. Sugiro habitualmente que, durante as leituras efetuadas, devem ser proporcionados momentos de encorajamento para a utilização da atenção sobre o que está a ser lido, que se treine a observação das imagens que servem de ilustração das histórias, e que se promova, junto da criança, a oportunidade de poder falar sobre o que ouviu ler.

Na verdade, criam-se oportunidades para ajudar a criança a conhecer o mundo, ajudada pela exploração dos sentidos. Centrando-se no que ouve nas histórias, no que vê nas imagens, no que toca, no processo de manipulação dos livros, mas também no que “cheira” e, até, “saboreia”, fazendo uso da sua imaginação…


No mesmo sentido, as orientações do Plano Nacional de Leitura (PNL) enfatizam que as crianças que ouvem ler em voz alta, e conversam sobre livros, se interessam mais pela escola, gostam de aprender, aprendem a ler mais depressa, desenvolvem-se melhor e, geralmente, tornam-se bons alunos. Sem dúvida, bons motivos para que, sempre que surja a oportunidade, se leiam histórias às crianças e se ofereçam livros como presente. No PNL, destaca-se ainda que, a leitura, acalma, dá prazer e estimula a inteligência, havendo sempre boas ocasiões para se ler em família.

Naturalmente, será bom lembrar, que as leituras, como qualquer outra experiência proporcionada, devem ir ao encontro dos interesses da criança. E, para ajudar a pôr em prática estas ideias, deixo a sugestão “Viagem ao mundo maravilhoso das histórias”, tal como apresentei no capítulo sobre o tema, do meu livro referido.



Boas leituras!

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